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“Vais abrir o rali
com o Armindo?... ui…tás tramado. Lá em cima na Cabreira, quando olhares
para o lado.... Se precisares de um comprimido para o enjoo, vai ter com
o Luís Ramalho…” mas não fui. Ao lado de um grande piloto ir a 160 km/h
entre árvores ou junto a precipícios até parece fácil… mas ficamos só
pelo parece…
José Ribeiro
jribeiro@motorpress.pt
Fotos: João Lavadinho |
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Então,
conta lá como é que foi essa experiência de ir andares ao lado do Armindo Araújo
a prova toda? Perguntava-me o meu amigo Nuno Rodrigues da Silva, um dos mais
experientes navegadores do Nacional de ralis e outrora, também ele, jornalista.
“Olha”,
respondi, “primeiro, acho que todas as pessoas que tenham quaisquer veleidades
de que sabem andar depressa nas estradas deviam ter a oportunidade e o
privilégio que eu tive de fazer pelo menos só um troço ao lado do Armindo para
descerem à terra e verem como se conduz, realmente, muito bem.
Uma
coisa é estar do lado de fora, num morro e ver o carro a bailar numa travagem ou
a escorregar à saída de uma curva, e pensar que até parece fácil, mas do lado de
dentro, isto exige, sem sombra de dúvida, uma perícia muito grande e uma
sensibilidade enorme, para controlar o volante – muitas vezes só com uma mão! –
enquanto a outra se ocupa constantemente da caixa de velocidades e do travão de
mão. Ah, e acresce aqui dizer que o travão de mão do Mitsubishi Lancer que
usámos, não tinha um accionamento eléctrico em que basta um pequeno toque para
soltar a traseira. Neste caso, o Armindo tinha mesmo que puxar forte pelo
travão, o que só complica as coisas quando é preciso colocar o carro para a
curva no sítio certo, ou tirá-lo de uma situação mais complicada.
Mas o
controlo dos pés, no acelerador, travão e embraiagem é também brilhante.
Sobretudo, quando ainda neste carro, a caixa de velocidades que estava montada
era absolutamente de série, ou seja, não perdoava muitos exageros de rotação.”
E
usaram notas de navegação? Insistia o Nuno, já rodeado de mais alguns “colegas
de circunstância”…
“Não!
Só na super-especial é que tirámos notas porque o Armindo não conhecia o troço
que, como sabes, tinha umas zonas complicadas como a mudança de estrada ou umas
bermas traiçoeiras, mas quanto ao resto do rali, como ele já o tinha ganho
quatro vezes consecutivas conhecia bem os troços. Aliás, sabes que ele tem uma
casa na Serra da Cabreira onde, em miúdo, o único divertimento que tinha era
pegar num carro e ir acelerar para as estradas de terra do monte. Logo ele
conhece bem o tipo de piso. Por isso, ditar-lhe as notas de andamento do Miguel
Ramalho só teria sido prejudicial porque ele tem algumas referências muito
encadeadas do estilo ‘Direita Média menos para Esquerda Média menos com atenção
à travagem’ que, uma pessoa inexperiente como eu e sem capacidade para debitar a
informação rápida e a tempo, não conseguiria acompanhar. Assim, o melhor mesmo
foi andar todo o tempo caladinho e apreciar as vistas como ele me dizia…
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Mas ó Nuno,
olha que, mesmo assim, a andar à vista e a conversarmos pelo caminho, sobre as
zonas traiçoeiras do piso, a vegetação, os espectadores e a compararmos muitas
vezes as situações que encontrávamos pelo caminho com aquelas que ele vive no
campeonato do Mundo de ralis, ainda andámos rapidinho… As milhares de fotos que
nos tiraram provam-no bem, seja nos saltos ou nas curvas onde passávamos
positivamente atravessados – porque embora fossemos como carro “0” de segurança
para alertar a organização de um eventual problema antes do Bruno Magalhães
partir para os troços, também era preciso dar espectáculo para o público. Por
isso, não me surpreende muito que um amigo me tenha vindo dizer que estava a
tirar tempos nos troços e que nós vínhamos estávamos entre o quarto e o quinto
classificado…”
Então,
e entendeste-te com o “road-book” e a carta de controlo? Não falhaste com as
horas certas, não? Perguntava o “professor” para o “caloiro”…
“Pois
olha, meu caro Nuno, acho que só me perdi uma vez, mas foi porque tivemos de
sair do percurso para ir à procura de uma bomba de gasolina, porque um depósito
de 70 euros de gasolina só deu para meio rali. Mas depois de ter acertado o
relógio de manhã, na partida, com as horas da organização as coisas foram
fáceis. Mas é preciso ter, realmente, muita atenção a somar os minutos e estar
concentrado para saber quando é que devemos entrar no controlo para não
penalizar por avanço ou atraso. Aqui, o navegador tem que estar sempre muito
atento, como de resto, acontece com o caderno de itinerários, porque aquilo tem
tantos números e indicações que é fácil falhar.
Talvez
por isso é que no momento da partida para a super-especial que abria a prova,
quase sentia o bater do coração nos auscultadores do capacete… Respirar era
quase impossível quanto mais comer qualquer coisa antes de irmos para o troço,
como o Armindo queria… (jantámos só lá para as onze e já foi uma sorte…)
Mas
sabes Nuno, já percebi que o stress é igual para todos, uns por inexperiência e
os mais velhos, pela ansiedade de conseguirem um bom resultado. Isto sim, é a
pior parte de todo um rali.
Agora,
digo-te uma coisa, aquilo que eu gostava mesmo era de voltar com o ‘filme’ atrás
e voltar a passar nalgumas lombas ou curvas de topo cegas, com notas, para ver o
Armindo a passar sem hesitações… Isso sim, é que deve ser arrepiante… Porque ir
a 160 km/h entre árvores, ou com umas rochas enormes a olharem para nós (…), ou
até mesmo sem nada ao lado a não ser a barragem da Caniçada lá bem ao fundo, é
simplesmente o máximo!” |